Cara compatriota Maria Barros,
Bem sei que, muitas vezes, transformo os meus pequenos problemas em grandes tempestades. Talvez para dar algum entusiasmo ao que narro, talvez porque, na minha vida abençoada, são os maiores problemas que encaro. Porém, não posso ficar indiferente à
carta que dirigiste ao senhor Presidente da República.
Escreve-te uma aluna pouco mais jovem que tu e que espera passar pelo mesmo processo de seleção pelo qual passaste. Também receio que a nota de um exame, que vale metade da entrada no curso que almejo, me trave. Trabalho incessantemente para ter uma margem de conforto, mas, mesmo assim, temo. Temo, e todos os outros temem também. Tu temes, o colega que se aplicou e conseguiu uma média superior à tua também temeu. O sistema funciona assim. Se é um bom sistema? Provavelmente não. Cabe-nos a nós adaptarmo-nos enquanto não o alteram.
As médias são desumanamente altas, dizes tu, mas quase dois mil alunos conquistaram o que tu não conquistaste. Porquê? Talvez terão tido mais sorte que tu, talvez se tenham aplicado mais do que tu. Já agora, sabes o quanto significa um fosso de três décimas? Milhares e milhares de jovens adultos que também ficaram pelo caminho. Tu perdes e outros milhares perdem, não fosse medicina um dos cursos mais procurados e mais prestigiados do país. Se é isto que desejas, porque não voltas atrás e trabalhas para melhorar os teus resultados? Ou será que o desejo de mostrar à mamã a bata de médico é maior do que a vontade de trabalhar por aquilo que convictamente afirmas ser o teu sonho? Eu sei que é uma chicoteada psicológica e compreendo-te, só que escrever uma carta ao representante máximo da nação não te vai colocar na lista de colocados da universidade próxima de casa.
Como te disse, levo uma vida abençoada. Os meus pais podem pagar-me o transporte até à universidade, podem pagar as minhas propinas. E aqueles que também sonham e não têm essa oportunidade, porque não têm disponibilidade económica para tal? Muitos deles vão ter de interromper a sua caminhada para angariarem dinheiro. Alguns, se calhar, nem terão oportunidade de voltar a estudar. Muita sorte tens tu, minha querida. Os teus pais podem suportar todos os custos que implicam estudares no estrangeiro. E os outros? Já pensaste naqueles que não têm a mesma oportunidade que tu e eu? Achas que a média desumanamente alta do curso em questão é o maior dos problemas daquilo a que chamamos de sistema de ensino português?
Finalmente, devo dizer-te que tenho uma grande amiga que luta pelo mesmo que tu. A diferença é que ela tem uma média, até à data, bem superior à tua. Sabes porquê? Porque ela trabalha arduamente pelo seu sonho. E, caso não consiga entrar em Lisboa (certamente conseguirá), espera entrar noutra universidade portuguesa menos prestigiada. Também eu, nós, quem te precedeu, percorre o caminho, por vezes atribulado, da chegada ao Ensino Superior. Faz parte do crescimento. Mas, minha cara, não sejas derrotista. Tenta de novo, melhora as tuas notas. Vais desistir assim de alcançar o teu sonho no teu país? Ou o que importa é ter um diploma fino daqui a uns anos? E, pelo amor de Deus, não vais morrer, nem precisas de escrever ao presidente. Há tantos outros na mesma situação que tu, que, neste momento, estão nas escolas secundárias a fazer melhoria de nota. Porém, há tantos outros que gostariam de estar na tua situação, mas, tal como destacaste, Portugal não é um país justo: há quem tenha de abandonar os estudos para alimentar a família, outros que nunca suportariam os custos de uma educação a nível universitário e outros tantos que, no silêncio que reina nesta sociedade egocêntrica, vivem de estômago vazio. Se fosses tu não gostavas, pois é, não gostava. A diferença é que tenho consciência que, se não entrar em direito, a culpa não será de alguém senão minha. Só mesmo para terminar, não é a tua família que tem de ficar desiludida, és tu.
Atenta na realidade que te rodeia.
Com os melhores cumprimentos,
Inês Elias
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