Quando pensamos em futebol, salta-nos a imagem de um grande jogador ou de um clube de prestígio. O futebol é um negócio de milhões, sem dúvida. Mesmo nas pausas entre épocas, os adeptos vangloriam-se das vendas astronómicas dos seus clubes, da aquisição de determinado jovem promessa, da conquista de qualquer torneio disputado entretanto. Quem já está a pensar ela é rapariga, percebe cá disto pode ir procurar um artigo escrito por um homem e levar consigo os seus preconceitos medievais.

Não vou discorrer sobre a importância dada ao futebol, nem sobre os valores exorbitantes em jogo. Vou antes relatar a minha realidade, enquanto adepta. Poderia ser uma entre tantas outras, que, na hora de escolher um clube, optava por um dos três
grandes. Um daqueles que está sempre na baila. Um daqueles que ganha sempre (ou quase sempre). Um daqueles que arrasta milhares. Mas não sou. Há onze novembros atrás, fizeram-me sócia do
Vitória Futebol Clube (se pensarem que é aquele de Guimarães, levam uma galheta). Apesar de ter apenas cinco anos, não foi contra a minha vontade. Pelo contrário, mais cedo nesse ano, vibrei com a conquista da nossa terceira Taça de Portugal.
O Vitória tem cento e seis anos de existência. Viu os seus anos dourados na década de setenta. Hoje, as ambições da equipa de futebol encontram-se limitadas pelo pouco dinheiro do clube e pelo reduzido número sócios pagantes. Apesar da dimensão do clube, o Vitória é detentor de uma Carlsberg Cup, de três Taças de Portugal, de uma Supertaça Ibérica, de dois Troféus Ibéricos, de uma Mini-Copa do Mundo e de um Troféu Teresa Herrera. A estas conquistas, juntam-se todas as restantes presenças em competições nacionais e internacionais. Quantos de vós sabiam que o Vitória de Setúbal trouxe uma Supertaça Ibérica para Portugal? Nenhuns. Incrivelmente, poucos apreciadores da modalidade conhecem estes factos. E porquê? Porque a comunicação social está mais preocupada em conspirar sobre determinado jogador de determinado clube, do que em dar a conhecer os ditos clubes pequenos. Exemplifiquei com o caso do Vitória, mas poderia, muito bem, falar de clubes igualmente esquecidos pelos media, como o Belenenses, o Boavista, a Académica de Coimbra, entre tantos outros.

E em que é que esta (pouca) atenção resulta? Bem, vemos jovens naturais de cidades com clubes históricos optarem por um dos três grandes, vemos os cofres dos mesmos grandes engordarem às custas de publicidade gratuita, vemos clubes com uma vasta oferta desportiva empobrecerem cada vez mais, porque ninguém os vai escolher, se não os conhecer.
Se este é um problema digno de carta aberta ao presidente? Claro que não. A situação do desporto em Portugal é só um dos exemplos a dar, sempre que nos perguntarem o que é que está mal neste país. Sobrevaloriza-se o lucro e menosprezam-se os valores, sobrevalorizam-se as audiências televisivas e menosprezam-se projetos menores com muito mais utilidade pública. Sim, porque o Vitória de Setúbal não é só uma equipa de futebol de meio da tabela. É um clube que oferece modalidades como ginástica, andebol, dança, luta, artes marciais, ténis de mesa, entre muitas outras, a miúdos e graúdos, e com um papel importante na formação de jovens atletas setubalenses.
Etiquetas: Crítica